O século XX é considerado como o século dos extremos, o século que, mesmo tendo cem anos, parece ter durado menos. Essa perspectiva relaciona-se ao fato de ter sido um período de intensas situações. Entre os acontecimentos que contribuíram para o século XX ter essa alcunha estão as guerras.
Só na primeira metade foram duas que foram registradas como mundiais. A partir da segunda metade (1945) foi iniciada a Guerra Fria, caracterizada pelo conflito principalmente ideológico que produziu algumas guerras dentre as quais destaca-se a guerra do Vietnã. Esta guerra movimentou muitas pessoas, tanto para guerrear quanto para contestar sua realização, sua continuidade.
Nessa contestação, destacaram-se jovens - os hippies - entre outras/os que evidenciaram a negação dos horrores da guerra e também o conflito de gerações.
Em 1967, o cantor Reginaldo Rossi gravou Mexerico dos Quadrados, que expõe questionamentos à ordem vigente que não aceitava as atitudes juvenis, que deixavam os cabelos crescerem, trajavam calças jeans e se recusavam a participar das maquinações de um mundo marcado pela barbárie.
Mostra para nós como a produção cultural sofre influências do contexto histórico, social no qual vive o/a artista.
Música é história. #penseFORADACAIXA
MEXERICO DOS QUADRADOS
Seria bom que eles deixassem De falar tanto da nossa geração Seria bom que eles lembrassem No tempo deles, quanta confusão
Ninguém tinha cabelo comprido Mas em compensação eu nem sei por que Fizeram duas guerras sem nexo Enquanto que o meu mal é só dançar yê, yê, yê
Se uso a minha calça apertada Isto não quer dizer que eu seja tantã Talvez eu esteja com medo Que me ponham na guerra do vietnã
O mundo será bem melhor Quando todos eles entenderem que
É bom usar calça apertada Usar cabelo grande e dançar yê, yê, yê
Usar a calça bem apertada O cabelo bem grande e dançar yê, yê, yê
O Tropicalismo foi o movimento político, artístico - cultural, enfim, que surgiu no Brasil em uma situação de questionamento acerca do que era o país, de tentar descobrir o que seríamos. Não se deve considerar o Tropicalismo como algo fechado pois buscou e dialogou com várias áreas, destacando o que se convencionou designar como indústria cultural. Há muita influência também da Semana de Arte Moderna e sua antropofagia.
Experimentalismo e exposição-denúncia de muitas das mazelas que a chamada modernização industrial trazia para o país podemos ver na produção tropicalista. Em PARQUE INDUSTRIAL, de Tom Zé, temos um desfile das contradições que tomavam contas das cidades que se tornavam grandes no Brasil. A industrialização é mostrada como arauto da salvação brasileira. A modernidade da cultura de massa informa, ao mesmo tempo, sobre a futilidade e o suposto desmoronamento dos valores morais e expunha a violência cotidiana através dos jornais populares.
Uma grande provocação.
Retocai o céu de anil Bandeirolas no cordão Grande festa em toda a nação.
Despertai com orações O avanço industrial Vem trazer nossa redenção.
Tem garota-propaganda Aeromoça e ternura no cartaz, Basta olhar na parede, Minha alegria Num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafadão Já vem pronto e tabelado É somente requentar E usar, É somente requentar E usar, Porque é made, made, made, made in Brazil. Porque é made, made, made, made in Brazil.
Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.
A revista moralista Traz uma lista dos pecados da vedete E tem jornal popular que Nunca se espreme Porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado Já vem pronto e tabelado, É somente folhear e usar, É somente folhear e usar.
Um dos assuntos mais discutidos no Brasil neste ano é a corrupção e há grandes chances de ser tratada no ENEM.
Uma forma de abordar o tema é começar definindo corrupção: usar o poder público para obter ou fornecer vantagens, sendo estas tanto interesses quanto dinheiro que, neste caso, por ser dinheiro público, oriundo das cobranças de impostos, configura-se crime contra a sociedade.
É muito comum não se perceber as contradições presentes nas reivindicações de punição contra corruptos/as. Muitos/as brasileiros/as nos orgulhamos de, sempre que necessário, conseguirmos "dar um jeito", o "jeitinho brasileiro". Muitas vezes esse "jeitinho" caracteriza-se pela resolução dos problemas através de artifícios ilegais ou imorais.
Usufruir do fato de conhecer alguém que possa "apagar" a multa recebida corretamente, oferecer uma troca de favores, pedir que o/a colega assine o nome para não levar falta na aula que não se quer assistir, oferecer um brinquedo novo para a criança se ela aumentar as notas no boletim escolar (nesse caso mostra-se para a criança uma forma de conseguir algo que precisa de esforço para superar dificuldades) são exemplos cotidianos, comuns que mostram a contradição entre ser contrário ao cenário político marcado por muita corrupção e, no dia a dia, cometer atos corruptos.
É fundamental que nos responsabilizemos pelos nossos atos. Não importa de qual partido se faça parte ou seja simpatizante. Não deve pender a balança da justiça para favorecer nenhum lado. O que deve-se atentar é para a indignação seletiva que toma conta das ruas e que parece que somos, cada um, um oásis de honestidade cercado por um deserto de desonestos/as.
RESPONSABILIZAÇÃO é a palavra que deve ser colocada em prática. POR TODAS/OS!
Zeca Baleiro pode nos ajudar a começar a pensar sobre o assunto.
FUNK DA LAMA
Tanto faz se é Ivete ou Shakira, Tanto faz se é Sá, Rodrix ou Guarabira Você vai ter que responder pelo que faz Você vai ter que responder pelo que diz
Tanto faz se é pratão ou se é pelego Tanto faz se é Pelé ou se é Diego Você vai ter que responder pelo que faz Você vai ter que responder pelo que diz
Bota a mão nas cadeiras Vai até o chão com graça A moral do chão não passa Bota a mão nas cadeiras Dança com malemolência Bota a mão na consciência.
Vem cachorra, nem precisa de cama O mundo tá atoladinho O mundo tá atoladinho na lama
Vem cachorra, nem precisa de cama O mundo tá atoladinho O mundo tá atoladinho na lama
Tanto faz se é Demóstenes ou Palocci Se é Fábio Melo ou Marcelo Rossi Você vai ter que responder pelo que faz, Você vai ter que responder pelo que diz
Tanto faz se Homem do Ano ou Mulher-Pera Tanto faz se é Bolsonaro ou se é Gabeira Você vai ter que responder pelo que faz Você vai ter que responder pelo que diz
Bota a mão nas cadeiras Vai ate o chão com graça A moral do chão não passa Bota a mão nas cadeiras Dança com malemolência Bota a mão na consciência
Vem cachorra, nem precisa de cama O mundo tá atoladinho O mundo tá atoladinho na lama
Em tempos de clamores significativos contra e a favor da redução da maioridade penal, o filme JOGOS VORAZES pode nos dizer algumas coisas, afinal, a produção cultural de uma época é um espelho de suas contradições e afins.
A primeira é que não estamos tratando bem nossas crianças e jovens. Não há uma política efetiva para a juventude brasileira, principalmente para a que reside nos bairros pobres (de periferia) ou pelas ruas das cidades. Quem é de família mais abastada já tem sua política para seus jovens, que inclui educação de qualidade, saúde, segurança, uma vida, enfim.
No filme esse ponto se vê a partir do futuro que é garantido para as crianças e jovens dos distritos: continuar trabalhando e vivendo do mesmo jeito, produzindo o que é necessário para a vida da Capital ou participar dos Jogos que garantem a morte de vinte três jovens. Apenas um/a vencerá.
Metáfora interessante que pode ser verificada no Brasil através dos exemplos de pouquíssimos jovens de periferia que conseguem sobreviver em meios às péssimas condições de vida.
No filme, vence quem mata os/as concorrentes. Aqui o Estado mata quando não garante as condições ou mata através dos aparelhos repressivos.
Vence quem consegue sobreviver sem matar e ainda acredita que as outras pessoas também podem conseguir. Coroando a ideologia do liberalismo e a valorização do individualismo não percebem que são exceções que CONFIRMAM a regra: criança e jovem pobre (e negra/o) devem morrer.
Tanto na distopia de Jogos Vorazes quanto no Brasil no qual vivemos, não são as crianças nem os jovens que decidem o próprio futuro, mas são os/as adultos/as.
A reação de Katniss direciona contra ela a fúria da Capital. Aqui muitos/as crianças e jovens reagem buscando sobreviver e sendo violentas contra uma estrutura que as violenta desde que ela nasceu.
Focar apenas nas crianças e jovens que cometem os crimes é incorrer em erro e intensificar a barbárie que nos circunda. Não se trata de proteger quem comete crimes, mas de buscar soluções alternativas, uma vez que o encarceramento sem garantias de condições mínimas de saúde e sanitárias (que é o padrão das instituições carcerárias brasileiras) já se mostrou ineficaz há tempos.
Se não repensarmos e realizarmos mudanças, a arena dos Jogos Vorazes vai se estender das periferias e favelas e, inevitavelmente, atingirá a Capital, metáfora interessante de cada um de nós no conforto de nossas precárias seguranças.