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ARTIGOS

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AOS MEUS ALUNOS E ALUNAS E SEUS PAIS E MÃES: ESCLARECIMENTOS SOBRE A GREVE

Professorxs das escolas particulares estamos em greve. Estamos? É, estamos. Se você é estudante, talvez estranhe essa notícia. Por que algumas de suas professoras e professores darão aula? Por que não pararão as atividades? 

Algumas considerações sobre a greve:

1. É SEMPRE A ÚLTIMA OPÇÃO DOS TRABALHADORES.
Quando todas as tentativas de negociação entre patrões e empregados não atinge a conciliação entre os interesses patronais e reivindicações trabalhistas, a greve é iniciada.

2. É SEMPRE DECIDIDA EM ASSEMBLEIA.
Não são os diretores de sindicatos que decidem fazer greve, são xs professorxs reunidxs em assembleia que o fazem.

3. TODXS PROFESSORXS SÃO OBRIGADXS A FAZER GREVE?
NÃO. A greve é em prol da coletividade, mas a adesão é individual.

4. POR QUE TEM PROFESSORXS QUE NÃO FAZEM GREVE?
Por vários motivos, os mais comuns são:

                               a. MEDO. Contas a pagar, famílias para sustentar são consideradas amarras para muitxs professorxs e, temendo não ter condições de garantir o sustento próprio e dos familiares, não aderem ao movimento;

                                b. CRENÇA QUE O EMPREGO É UM PRESENTE DOS DONOS DA ESCOLA. Alguns professrxs acreditam que a manutenção do emprego é um favor feito pelos patrões, desconsiderando que é enquanto for útil para a instituição que seu emprego é mantido. Entenda útil como: cumpre suas obrigações, não falta (mesmo adoecendo ou tendo alguém da família doente), participa das atividades da instituição...

                               c. CRENÇA QUE NÃO FAZENDO GREVE NÃO SERÃO DEMITIDXS. Muitxs acreditam que não serão demitidxs se não reivindicarem seus direitos, o que se revela um erro, pois muitas demissões ocorreram e ocorrem e ocorrerão mesmo sem adesão ao movimento grevista (como mencionado no tópico acima);

A greve é, com certeza, nossa última opção. Todxs que têm aula comigo sabem que defendo a Discórdia, que é, em nossas aulas, o motivo agregador, instigador do debate. Digo para todxs que A DIFERENÇA É NATURAL MAS, A DESIGUALDADE É SOCIAL, LOGO, CONSTRUÍDA A PARTIR DE DETERMINADOS INTERESSES.

NÃO FAÇO GREVE COM O INTUITO DE PREJUDICAR VOCÊS, ESTUDANTES, mas não posso afirmar em sala de aula que podemos mudar o mundo, torná-lo menos desigual e não fazer parte do movimento que garantirá melhores condições de vida para mim e, por extensão, melhor educação para vocês.

O que reivindicamos:


A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!


MUDE. AJA.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA.



                               

domingo, 2 de junho de 2013

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MARCHA DAS VADIAS - Recife, 2013

A Marcha das Vadias passou e depois dela vieram os comentários. Comentários que foram desde os maiores elogios até a mais pura negação sem deixar de passar pela ridicularização, intolerância e desrespeito. Enquanto professor, presenciei colegas de profissão afirmarem que um movimento que busca respeito não deveria ter participantes seminuas gritando palavras de ordem pelas ruas e se auto-intitulando vadias.

Decidi escrever algumas considerações sobre a Marcha das Vadias com o objetivo inicial de esclarecer alguns tópicos e, claro, instigar o pensamento fora da caixa através da Discórdia. Comecemos, então:

1. O MOVIMENTO TEM UMA ORIGEM VIOLENTA.
Após a ocorrência de vários estupros na universidade de Toronto, no Canadá, um policial afirmou que, para não serem violentadas sexualmente, as mulheres não deveriam se vestir como vadias. Mais de três mil pessoas protestaram e, a partir dali, espalhou-se pelo mundo.

2. QUANDO ALGUÉM É ASSASSINADO A CULPA É DO ASSASSINO; POR QUE QUANDO UMA MULHER É ESTUPRADA, A CULPA É DELA?
Vamos seguir o raciocínio em etapas: quando alguém é roubado, busca-se o ladrão que cometeu o delito e não se diz: “quem mandou ter celular? Só podia ser roubado, mesmo. Bem feito!”; quando alguém é assassinado, destaca-se o crime, procura-se o criminoso e não se diz: “quem mandou estar vivo? Se está vivo é para ser assassinado! Acho é bom!”
                Quando uma mulher sofre um estupro, há um olhar mórbido, acusador para a vítima e pergunta-se afirmando: “será que ela não provocou?” “você reparou na roupa que ela está usando? Pedindo pra ser estuprada!”
                É UMA LÓGICA PERVERSA que naturaliza o estupro contra mulheres e é um crime brutal, uma vez que o que há de mais pessoal, o próprio corpo, é violado contra vontade de sua dona.

3. VADIA = LIVRE PARA VESTIR O QUE QUISER E FAZER O QUE QUISER COM O PRÓPRIO CORPO.
Ouvi muito a frase: “como querem respeito e se chamam de vadias?” Vamos entender: usa-se o termo para definir quem não tem ocupação, quem não faz nada. No popular, é referência a vagabunda ou, ainda, prostituta. As mulheres que foram violentadas na universidade de Toronto, pense bem, universidade de Toronto, poderiam ser definidas assim? Provavelmente não.
                Se você é uma mulher e está lendo esta postagem, és vadia porque escolhes a roupa que queres usar? E mais ainda: só porque sua roupa tem um decote ou é um short curto você é uma prostituta? Penso que não.
                O uso do termo Vadia tem o objetivo de negar o conteúdo preconceituoso que a palavra tomou. As palavras e o sentido que a elas é dado também são ideológicas.
                Quando o policial usou o termo, reafirmou uma visão machista e sexista que legitima muitos crimes. A mesma sociedade que veicula propagandas afirmando que as mulheres devem se vestir de maneira sensual e agradar namorados, maridos e afins, é a mesma que chama de vadia essa mesma mulher que sofre uma violência por estar usando a roupa que a propaganda vendeu com a característica mágica de torná-la sensual e atraente.
                Temos uma contradição perversa e cruel. Se quisermos adicionar um elemento novo, então perguntemos o que justifica os estupros contra mulheres que usam burcas ou vestimentas “mais comportadas” como o caso recente de estupro coletivo na Índia (é recente a notícia, mas atos dessa natureza ocorrem há muito tempo, tempo demais, até).

Se o corpo feminino é usado como objeto para vender cervejas, roupas e pode ser atraído a partir da compra de determinados produtos, é exatamente isso o que a Marcha pretende negar, outros óculos, outra visão. Quando uma Vadia mostra o seio, a ideia, entenda, é: "O PEITO É MEU, SE USO ROUPA DECOTADA, É PORQUE QUERO USAR, E NÃO PARA VOCÊ, HOMEM, PEGAR!"

Mas o que é exposto em muitos lugares (destaque para a imprensa) são as fotos das mulheres que mostram os peitos, contribuindo para uma imagem equivocada e distorcida do objetivo da Marcha...

Ir para a Marcha ajudaria muito na quebra dessa visão distorcida. A Marcha é contra as violências que as mulheres sofrem, sendo a física, a violência extrema. As simbólicas estão por aí o tempo inteiro, desde a imposição de cores, passando pelos brinquedos, os assovios, as propagandas de cerveja.

Alguém vai afirmar: "MAS AS MULHERES ACEITAM ESSAS SITUAÇÕES DE INFERIORIZAÇÃO, USAM ROUPAS DESSE OU DAQUELE JEITO, PARTICIPAM DOS COMERCIAIS..."

Pensemos: COMO COBRAR UMA REFLEXÃO ACERCA PRÓPRIA CONDIÇÃO QUANDO NÃO SE FOI INSTRUMENTALIZADA PARA ISSO, QUANDO TODO O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO (lembrando Durkheim e outros) DIRECIONOU A FORMAÇÃO DE MUITAS PARA ESSE FIM?

4. TÁ, CONCORDO COM PARTE DO QUE ELAS REIVINDICAM, MAS TEM QUE SER A  FAVOR DO ABORTO? ISSO, PARA MIM, É CRIME.
Uma das imposições sociais mais recorrentes para as mulheres é a de ser mãe. Afirma-se que toda mulher é uma mãe natural. Parir é natural, ser mãe é social, culturalmente aprendido.
(…)
(…)
(…)

PAUSA ESTRATÉGICA PARA A FÚRIA E INDIGNAÇÃO QUE BROTOU NO CORAÇÃO DE MUITXS LEITORXS.

ATENÇÃO, LEIAM COM O CORAÇÃO ABERTO E A MENTE TAMBÉM:

Tudo que não está atrelado a natureza é cultural. Exemplo: fome é natural, saciar a fome é natural. Saciar a fome comendo aquela feijoada ao invés de feijão tropeiro é cultural. Dormir é natural. Dormir em cama ortopédica, cultural, considerando que o ato de dormir em tal móvel é parte do que se prescreve para determinados males da coluna ou, simplesmente porque se quer dormir em tal cama.

Ficar prenha (ou engravidar) é natural. Completar os nove meses de gestação é parte do que há de natural na gestação humana (alguns fetos não completam esse tempo). Mas SER MÃE, é algo que se aprende. Há o aprendizado da paciência, do tom de voz para garantir o controle, os sistemas de recompensa para comportamentos adequados, as “palmadas pedagógicas” que fazem parte do SER MÃE.

Uma problematização importante é a de que se ser mãe é natural, como explicar as mães que negam filhxs quando nascem? E por favor, não argumente com “estava possuída pelo mal” ou algo do gênero. A questão é que aborto é mal discutido na sociedade e negar a legitimidade de uma Marcha que busca melhores condições para quem, historicamente, esteve sempre sofrendo vituperações é demonstração de pouca sensibilidade.

Quando se discorda de um movimento, deve-se agir em prol do aperfeiçoamento, seja discutindo, seja atuando...mas calar-se e apenas criticar este ou aquele aspecto ou todo o movimento, é contribuir para a perpetuação do mal. Como escreveu o poeta: o problema não é a maldade dos malvados, mas a omissão dos "bons".

Precisa-se também sair do “umbigocentrismo” da própria opinião. A Discórdia é saudável. O que não contribui para a mudança social é a postura do “já opinei e fui ridicularizadX. Não falo mais! Pronto!” o primeiro passo para uma transformação contundente é considerar que suas ideias podem e serão recusadas. Injustiça? Talvez. Motivo para não participar? Não.

Como afirmei no início dessa postagem: não quero convencer pessoas a saírem nas ruas apoiando a Marcha das Vadias, mas esclarecer aspectos que, enquanto professor, é muito inquietante ver e ouvir sendo mal interpretados ou propositadamente mal interpretados.

O lema é: Discórdia hoje, Discórdia amanhã, Discórdia SEMPRE


Pensemos fora da caixa.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ALANE, CAROL BURGOS, DIANA, DIOGO, JULIA, LAIS, MARCELO, MOEMA, VADIAS, CLARO... um pouco de combustível para me fazer seguir adiante

Após a Marcha das Vadias ter acontecido em Recife, cidade que me serve de posto de trabalho, fiquei animado com as possibilidades de lutas sociais. As coisas mudam, sempre, já afirmara Heráclito. Mas algumas coisas permanecem, afirmou, talvez, Raul. Mas, por pouco tempo, também. 
Marcelo, Alane e Julia


Não dá para continuar violentando, roubando, matando, vilipendiando impunemente. As violências, as mais diversas, pois existem várias (já escrevera o sociólogo francês), podem e devem ser denunciadas e as autoridades, cobradas para garantirem aquilo para o qual existem: segurança e bem-estar para todxs. Noutros momentos, poderia-se xingar, agredir fisicamente e, a violência suprema, matar com grande margem de folga de sair impune. E se tivesse como justificativa a honra, até prêmio era possível receber.

Leis são criações da necessidade de regular o convívio em sociedade. Num entendimento simplificado, seriam fruto da necessidade de limitar algo que está afetando a existência de um grupo ou parte dele (aqueles que compõe a superestrutura, no dizer do judeu vermelho e influente). Pense da seguinte forma: para que o Criador (na tradição judaico-cristã) estabelecesse dez mandamentos, o Decálogo, proibindo roubo, assassinatos, cobiça da mulher alheia, juras do sacro nome em vão, era porque tudo que estava sendo proibido era praticado em tão larga medida que atrapalhava a coesão, a segurança e o bem-estar do grande grupo. Entendido isso, sigamos o raciocínio.

A sanção de leis como a Maria da Penha, a lei seca, o código de trânsito mais rígido são fruto, seguindo o que foi escrito acima, da necessidade de intervenção do Estado em determinado âmbito da vida coletiva, ou seja, se há um código mais rígido de controle do trânsito, este estava “descontrolado”, se há maior fiscalização e, por extensão, punições para quem dirige embriagado, muita gente foi prejudicada – inclusive irreversivelmente – por pilotos embriagados, então, uma lei que pune desde tapas, empurrões e extinção da vida feminina, é fruto do perigo para a segurança e o bem-estar PRINCIPALMENTE DAS MULHERES que a violência masculina gerava (e ainda gera).

A situação mudou. Ainda bem. Quando fui para a Marcha das Vadias, uma certeza tinha em mente: estou fazendo parte da História, sou um sujeito da História. Eu e outras pessoas que lá estavam, Vadias com “V” maiúsculo; Vadias que vi quando tinham 13/14 anos de idade e tiveram aulas de História comigo na 6ª, 7ª, 8ª série; Vadiazinhas, como chamei. Vadios também. Pense numa felicidade, daquelas que só mães e pais devem sentir quando veem que xs filhxs “deram pra gente de bem”, como minha mãe diz, ainda hoje.


Carol, Alane, Diana e Marcelo
Iana, Diogo, Anne, Lais e Tauana 
Outrxs que estão comigo este ano, tratando de Sociologia e que dizem para mim, sem uma palavra proferida: “acredito que posso mudar algo, que sou parte importante na transformação”, marcaram presença e confirmaram a máxima do Velho Deitado que diz: “seja exemplo e outrxs serão também”. Moema,  Alane, Marcelo, Diana, Diogo, Carol Burgos, Lais, essa postagem escrevo inspirado em vocês. Vocês injetaram mais combustível revolucionário em minha mente. Vê-los reivindicando fim da violência contra mulheres foi a certeza que estou no caminho certo, que procurar viver de acordo com o que falo em sala de aula é o caminho, espinhoso demais na maior parte das vezes, mas recompensador. 

Passarei, é verdade, mas a semente da Discórdia que plantei em vocês e noutrxs, seguirá. 

sábado, 11 de maio de 2013

CONTEÚDO SSA - 2013-2015


SSA - 1ª Série

1. História, fontes e historiadores.
1.1 Cultura e História; a diversidade do fazer e do pensar humanos e sua relação com a Natureza.

2. A Pré-História: economia, sociedade e cultura;
2.1 O Brasil pré-cabralino.

3. As relações entre poder e saber na Antiguidade Oriental e Ocidental e a busca pela compreensão e superação das dificuldades históricas.

4. As relações de poder na Idade Média Ocidental e Oriental e a importância da Igreja Católica na construção das suas concepções de mundo;

4.1 O mundo islâmico medieval;
4.2 A produção cultural no medievo.

5. A Modernidade com projeto histórico da sociedade europeia.
5.1 A formação do mundo moderno: O Renascimento, A Reforma e a Conquista e colonização dos povos pré-colombianos e pré-cabralinos da América;
5.2 Violência e dominação cultural nas relações políticas entre colonizados e colonizadores.

SSA - 2ª Série

1. Europa-África-América: A escravidão e sua inserção no mundo moderno.
1.1 A luta contra o seu domínio e sua contribuição para o crescimento do poderio europeu na gestão das riquezas e das concepções culturais de mundo.

2. O capitalismo e as suas relações históricas com a formação da burguesia.
2.1 Novas formas de saber e poder e mudanças na Europa.
2.2 A construção do liberalismo na política e na economia.

3. As resistências contra a colonização dos europeus e lutas políticas nas América.
3.1 As influências das ideias liberais e as crises do antigo regime.

4. O Brasil e a formação do Estado Nacional.
4.1 Autoritarismo e escravidão, hierarquias socais e revoltas políticas no período de Império.

5. A modernização da sociedade ocidental e sua expansão.
5.1 O impacto das invenções modernas e a crítica às injustiças do capitalismo.
5.2 O político-cultural e suas renovações: Romantismo, Socialismo e Anarquismo;
5.3 Produção cultural no Brasil do século XIX.

6. A expansão do mundo capitalista: o neocolonialismo e a opressão cultural: América, África e Ásia.
6.1 Os preconceitos científicos e as contradições do progresso.
6.2 As relações entre saber e poder no século XIX.
7. As relações históricas entre o abolicionismo e

SSA - 3ª Série

1. As primeiras décadas republicanas no Brasil.
1.1 Oligarquias e resistências. Insatisfações e modernismos.
1.2 O movimento operário e suas primeiras organizações e greves.

2. A primeira metade do século XX.
2.1 A I Guerra Mundial.
2.2 A Revolução Soviética.
2.3 O nazifascismo.
2.4 A Crise do capitalismo.

3. A modernização no Brasil e o autoritarismo político na primeira metade do século XX.
3.1 As dificuldades de construção da democracia e lutas dos trabalhadores.

4. A II Guerra Mundial e o fim dos impérios.
4.1 A descolonização da África e da Ásia.
4.2 Guerra Fria.

5. O mundo depois das guerras mundiais: as dificuldades as utopias e as relações internacionais.
5.1 Produção cultural no século XX;
5.2 Resistências culturais e o crescimento tecnológico.
5.3 A globalização e a massificação cultural: o cotidiano e seu controle pelo poder hegemônico.
5.4 Tensões contemporâneas: o Oriente Médio, a América Latina e a África.

6. O regime militar no Brasil: violência, censura e modernização.
6.1 A luta pela democracia e suas dificuldades.
6.2 Produção cultural no Brasil do século XX;
6.3 Organização política e violência social e urbana e a consolidação do capitalismo.
6.4 O Brasil e as suas relações com a América Latina nos tempos atuais.

Passe adiante.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA

segunda-feira, 8 de abril de 2013

HOMOFOBIA E USOS EQUIVOCADOS DO SABER HISTÓRICO

Considerando a recente onda de manifestações de rua e feicebuquianas sobre as declarações do deputado pastor Marco Feliciano e sua manutenção na Comissão de Direitos Humanos  e o que tenho ouvido e visto em minha prática docente, decidi contribuir para o debate esclarecendo alguns pontos que dizem respeito ao conhecimento histórico que está sendo utilizado em certas postagens e discursos por aí.

A intenção não é defender ou acusar este ou aquele grupo, mas esclarecer alguns elementos muito repetidos e que por estarem ligados ao conhecimento histórico merecem um melhor tratamento. Vamos lá:

1. “A política nazista fez uma campanha de aceitação forçada para o povo”. Ao utilizarem este argumento procuram defender que determinados partidos políticos estão forçando a população a aceitar a homossexualidade.

CORREÇÃO: O que Hitler fez não foi obra de um poder hipnótico macabro ou de uma máquina de controlar mentes. Ele foi o catalisador e agregador de um sentimento antissemita que grassava pela Europa ocidental desde o medievo. Com a crise econômica de 1929 e a descrença no liberalismo após a Primeira Guerra Mundial e sob a ameaça de crescimento do socialismo soviético, muitos apoiaram a ideia de um Estado centralizador (negação da não-intervenção estatal do liberalismo clássico) e garantidor da propriedade privada (negação do socialismo e sua defesa da destruição da propriedade privada burguesa). Não há, por parte do partido que está no poder, uma campanha de imposição de práticas homoafetivas, mas sim a defesa delas poderem se expressar e garantir direitos jurídicos que lhes são negados ainda que sobre esses grupos recaiam as mesmas obrigações da dita “normalidade”.

2. “A história da sociedade ocidental é a história do homem e da mulher”. Busca-se afirmar que a história da humanidade foi feita apenas pelos homens e pelas mulheres, não tendo participação quem estava fora da heterossexualidade monogâmica.

CORREÇÃO: A história da sociedade ocidental é a história do que foi registrado por homens que afirmavam e defendiam o modelo heterossexual, logo, registros de qualquer ação fora desse modelo mal existem e quando existem, a maior parte, foi feito com o olhar do padrão estabelecido. O silêncio, em história, diz muito sobre as práticas sociais de outros tempos e espaços. Segue-se assim o exemplo cotidiano de não falar sobre algo, sobre um problema, seja qual for, crendo que ele deixará de existir. Citando o poeta Brecht:

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

O silêncio sobre os cozinheiros no exército de César é prova de que eles não existiram ou não participaram da conquista? Não. Manter essa afirmação é incorrer em um erro histórico grave.

3. “Os nazistas faziam campanha nas escolas para doutrinarem as crianças garantindo adeptos para as suas ideias e o Estado brasileiro quer ‘formar gays desde criancinha’ ao distribuir kits abordando a temática em escolas”.

CORREÇÃO: O Estado nazista implementava uma educação que buscava formar cidadãos preparados para obedecer ao Fuehrer e as escolas valorizavam mais a ação do que a reflexão. Incentivava-se, também, a negação do Outro, daquilo que não era alemão, a denominada “raça ariana”. Uma observação mais cuidadosa dos chamados “kits gays” garantirá o entendimento que o objetivo é combater atos de violência verbal, física, simbólica contra as crianças e adolescentes que não se enquadram no SUPOSTO comportamento correto. A afirmação que se quer fazer a juventude crescer homossexual é fruto de desconhecimento do conteúdo do kit. O Estado nazista não intentava formar pensadores e sim executores de ordens. O objetivo do kit é possibilitar, desde a tenra idade, a percepção de que o mundo não é meu umbigo ou minha forma de pensar e, PRINCIPALMENTE, DEIXAR VIVER AQUELA/AQUELE QUE NÃO É MEU REFLEXO NO ESPELHO.

ALGUNS ESCLARECIMENTOS:

O PLC – 122 (Projeto de Lei da Câmara) muito mencionado e pouco lido e refletido, deve ser entendido de maneira mais ampla, histórica e sociológica. A elaboração de lei é fruto de um contexto histórico ligado a necessidades específicas, seja de uma pessoa, seja de uma coletividade. Vale ressaltar que a maior parte das leis liga-se a necessidade de grupos que, ou estão no comando ou pressionando quem está.

O PLC – 122 foi elaborado com o objetivo de ampliar a lei 7716/89. Esta lei criminaliza racismo, discriminação por PRECONCEITO RELIGIOSO e XENOFOBIA. Atente para o fato de que a lei 7716/89 não é uma lei contra o racismo, como se afirma muito por aí e que nela está inserida a criminalização por PRECONCEITO RELIGIOSO, logo, não se estava garantindo direitos para uma minoria em detrimento da maioria, como anda sendo afirmado.

Esse mesmo PLC – 122 abarca que a reação contrária, de homossexuais discriminando heterossexuais também seja crime.

Deve-se considerar que o PLC – 122 não vai tornar crime o pensamento preconceituoso. O que vai ser criminalizada é a discriminação. Exemplo: posso pensar comigo que não gosto de duas mulheres se beijando no cinema, mas se as expulso do cinema pois são duas MULHERES se beijando, então configura-se a discriminação. A discriminação seria tornar ato aquilo que eu penso. Enquanto penso, é preconceito, quando impeço alguém de usufruir de direito porque vai de encontro ao que penso, estou discriminando.

Outro exemplo: se um sacerdote religioso adverte duas mulheres que se beijam no pátio de seu templo porque é considerado desrespeitoso QUALQUER BEIJO ENTRE CASAIS, então não há crime de homofobia. Contudo, se o casal que se beija é advertido pois SÃO DUAS MULHERES/HOMENS E NÃO SE ACEITA A DEMONSTRAÇÃO DE CARINHO ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO, ENTÃO CONFIGURA-SE HOMOFOBIA.

O que presenciamos hoje é uma mudança importante que a sociedade marcada pela heterossexualidade monogâmica está passando. Assim como olhamos para os registros de mulheres sendo queimadas sob acusação de bruxaria na idade média europeia ocidental com perplexidade perante tamanha brutalidade, as gerações posteriores poderão olhar para os registros desses momentos e perguntar: como puderam ser tão intolerantes?

Pense fora da caixa.

Tenha HISTÓRIA NA CABEÇA