O Tropicalismo foi o movimento político, artístico - cultural, enfim, que surgiu no Brasil em uma situação de questionamento acerca do que era o país, de tentar descobrir o que seríamos. Não se deve considerar o Tropicalismo como algo fechado pois buscou e dialogou com várias áreas, destacando o que se convencionou designar como indústria cultural. Há muita influência também da Semana de Arte Moderna e sua antropofagia.
Experimentalismo e exposição-denúncia de muitas das mazelas que a chamada modernização industrial trazia para o país podemos ver na produção tropicalista. Em PARQUE INDUSTRIAL, de Tom Zé, temos um desfile das contradições que tomavam contas das cidades que se tornavam grandes no Brasil. A industrialização é mostrada como arauto da salvação brasileira. A modernidade da cultura de massa informa, ao mesmo tempo, sobre a futilidade e o suposto desmoronamento dos valores morais e expunha a violência cotidiana através dos jornais populares.
Uma grande provocação.
Retocai o céu de anil Bandeirolas no cordão Grande festa em toda a nação.
Despertai com orações O avanço industrial Vem trazer nossa redenção.
Tem garota-propaganda Aeromoça e ternura no cartaz, Basta olhar na parede, Minha alegria Num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafadão Já vem pronto e tabelado É somente requentar E usar, É somente requentar E usar, Porque é made, made, made, made in Brazil. Porque é made, made, made, made in Brazil.
Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.
A revista moralista Traz uma lista dos pecados da vedete E tem jornal popular que Nunca se espreme Porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado Já vem pronto e tabelado, É somente folhear e usar, É somente folhear e usar.
Um dos assuntos mais discutidos no Brasil neste ano é a corrupção e há grandes chances de ser tratada no ENEM.
Uma forma de abordar o tema é começar definindo corrupção: usar o poder público para obter ou fornecer vantagens, sendo estas tanto interesses quanto dinheiro que, neste caso, por ser dinheiro público, oriundo das cobranças de impostos, configura-se crime contra a sociedade.
É muito comum não se perceber as contradições presentes nas reivindicações de punição contra corruptos/as. Muitos/as brasileiros/as nos orgulhamos de, sempre que necessário, conseguirmos "dar um jeito", o "jeitinho brasileiro". Muitas vezes esse "jeitinho" caracteriza-se pela resolução dos problemas através de artifícios ilegais ou imorais.
Usufruir do fato de conhecer alguém que possa "apagar" a multa recebida corretamente, oferecer uma troca de favores, pedir que o/a colega assine o nome para não levar falta na aula que não se quer assistir, oferecer um brinquedo novo para a criança se ela aumentar as notas no boletim escolar (nesse caso mostra-se para a criança uma forma de conseguir algo que precisa de esforço para superar dificuldades) são exemplos cotidianos, comuns que mostram a contradição entre ser contrário ao cenário político marcado por muita corrupção e, no dia a dia, cometer atos corruptos.
É fundamental que nos responsabilizemos pelos nossos atos. Não importa de qual partido se faça parte ou seja simpatizante. Não deve pender a balança da justiça para favorecer nenhum lado. O que deve-se atentar é para a indignação seletiva que toma conta das ruas e que parece que somos, cada um, um oásis de honestidade cercado por um deserto de desonestos/as.
RESPONSABILIZAÇÃO é a palavra que deve ser colocada em prática. POR TODAS/OS!
Zeca Baleiro pode nos ajudar a começar a pensar sobre o assunto.
FUNK DA LAMA
Tanto faz se é Ivete ou Shakira, Tanto faz se é Sá, Rodrix ou Guarabira Você vai ter que responder pelo que faz Você vai ter que responder pelo que diz
Tanto faz se é pratão ou se é pelego Tanto faz se é Pelé ou se é Diego Você vai ter que responder pelo que faz Você vai ter que responder pelo que diz
Bota a mão nas cadeiras Vai até o chão com graça A moral do chão não passa Bota a mão nas cadeiras Dança com malemolência Bota a mão na consciência.
Vem cachorra, nem precisa de cama O mundo tá atoladinho O mundo tá atoladinho na lama
Vem cachorra, nem precisa de cama O mundo tá atoladinho O mundo tá atoladinho na lama
Tanto faz se é Demóstenes ou Palocci Se é Fábio Melo ou Marcelo Rossi Você vai ter que responder pelo que faz, Você vai ter que responder pelo que diz
Tanto faz se Homem do Ano ou Mulher-Pera Tanto faz se é Bolsonaro ou se é Gabeira Você vai ter que responder pelo que faz Você vai ter que responder pelo que diz
Bota a mão nas cadeiras Vai ate o chão com graça A moral do chão não passa Bota a mão nas cadeiras Dança com malemolência Bota a mão na consciência
Vem cachorra, nem precisa de cama O mundo tá atoladinho O mundo tá atoladinho na lama
Em tempos de clamores significativos contra e a favor da redução da maioridade penal, o filme JOGOS VORAZES pode nos dizer algumas coisas, afinal, a produção cultural de uma época é um espelho de suas contradições e afins.
A primeira é que não estamos tratando bem nossas crianças e jovens. Não há uma política efetiva para a juventude brasileira, principalmente para a que reside nos bairros pobres (de periferia) ou pelas ruas das cidades. Quem é de família mais abastada já tem sua política para seus jovens, que inclui educação de qualidade, saúde, segurança, uma vida, enfim.
No filme esse ponto se vê a partir do futuro que é garantido para as crianças e jovens dos distritos: continuar trabalhando e vivendo do mesmo jeito, produzindo o que é necessário para a vida da Capital ou participar dos Jogos que garantem a morte de vinte três jovens. Apenas um/a vencerá.
Metáfora interessante que pode ser verificada no Brasil através dos exemplos de pouquíssimos jovens de periferia que conseguem sobreviver em meios às péssimas condições de vida.
No filme, vence quem mata os/as concorrentes. Aqui o Estado mata quando não garante as condições ou mata através dos aparelhos repressivos.
Vence quem consegue sobreviver sem matar e ainda acredita que as outras pessoas também podem conseguir. Coroando a ideologia do liberalismo e a valorização do individualismo não percebem que são exceções que CONFIRMAM a regra: criança e jovem pobre (e negra/o) devem morrer.
Tanto na distopia de Jogos Vorazes quanto no Brasil no qual vivemos, não são as crianças nem os jovens que decidem o próprio futuro, mas são os/as adultos/as.
A reação de Katniss direciona contra ela a fúria da Capital. Aqui muitos/as crianças e jovens reagem buscando sobreviver e sendo violentas contra uma estrutura que as violenta desde que ela nasceu.
Focar apenas nas crianças e jovens que cometem os crimes é incorrer em erro e intensificar a barbárie que nos circunda. Não se trata de proteger quem comete crimes, mas de buscar soluções alternativas, uma vez que o encarceramento sem garantias de condições mínimas de saúde e sanitárias (que é o padrão das instituições carcerárias brasileiras) já se mostrou ineficaz há tempos.
Se não repensarmos e realizarmos mudanças, a arena dos Jogos Vorazes vai se estender das periferias e favelas e, inevitavelmente, atingirá a Capital, metáfora interessante de cada um de nós no conforto de nossas precárias seguranças.
A "NÊGA" DO JORNAL, EMICIDA E O EMPODERAMENTO QUE INCOMODA
Essa semana as redes sociais foram tomadas (mais uma vez) pela repercussão do racismo do vizinho, que xingou a apresentadora do jornal - o nacional, da globo - a rede.
O caso oferece mais um (de novo) exemplo do racismo que compõe a nossa sociedade, que compõe cada um de nós. Mas o racismo que foi para as redes sociais é só a culminância daquele que está em todas as relações cotidianas, desde as de trabalho, passando pelas televisivas e, principalmente nas amigáveis da mesa de bar, das festas, das rodas de conversa, das piadas contadas e sorridas.
Uma forma de entender os comentários racistas (além do óbvio racismo) diz respeito a um processo maior: o de empoderamento da população negra. Comecemos entendendo o que é empoderamento.
Empoderar pode ser entendido como fortalecer e, se formos estender, assumir o poder. Muitos grupos que historicamente não participavam de maneira tão ativa da vida política e mesmo cotidiana estão cada vez mais nas ruas e também nas instituições da política "oficial".
Mas também estão "aparecendo", indo além. Aqui a referência é para a população negra. Ao usar o termo "aparecendo" faz-se referência visual mesmo: é cada vez maior o número de pessoas que "assumem" o cabelo crespo, que deixam de lado as chapinhas, os alisamentos.
Ao fazerem isso trazem para si os olhares que não estão acostumados, os aperreios (culturalmente adquiridos) de verem, isso mesmo, VEREM negros e negras.
E com o aumento do poder financeiro de parte da população negra, além do acesso aos cursos universitários, temos profissionais muito competentes em cargos que antes era-lhes vedada a participação, "incomodando" quem sempre teve a possibilidade de ter acesso àqueles espaços.
Há uma espécie de "outrofobia" cada vez maior, cada vez mais praticada. Esse temor do/a outro/a é temor de mudança e nesse caso da Maria Julia Coutinho é o que se pode identificar.
Se formos pensar em um quadro mais apocalíptico ainda (para esses seres outrofóbicos, racistas) teríamos um temor de uma reação efetiva da população que está nas periferias, favelas, amargando as mazelas da humanidade turbinadas pelo sistema econômico.
"Nóiz quer ser dono do circo Cansamos da vida de palhaço"
Trecho do recente clipe de Emicida nos dá um exemplo dessa possibilidade. Possibilidade temerosamente real - para os/as odiadores/as.
Boa Esperança Emicida
Por mais que você corra, irmão Pra sua guerra vão nem se lixar Esse é o xis da questão Já viu eles chorar pela cor do orixá? E os camburão o que são? Negreiros a retraficar Favela ainda é senzala, Jão! Bomba relógio prestes a estourar
O tempero do mar foi lágrima de preto Papo reto como esqueletos de outro dialeto Só desafeto, vida de inseto, imundo Indenização? Fama de vagabundo Nação sem teto, Angola, Keto, Congo, Soweto A cor de Eto'o, maioria nos gueto Monstro sequestro, capta-tês, rapta Violência se adapta, um dia ela volta pu cêis Tipo campos de concentração, prantos em vão Quis vida digna, estigma, indignação O trabalho liberta (ou não) Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu – extinção
Depressão no convés Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois Pique Jack-ass, mistério tipo lago Ness Sério és, tema da faculdade em que não pode por os pés Vocês sabem, eu sei Que até Bin Laden é made in USA Tempo doido onde a KKK, veste Obey (é quente memo) Pode olhar num falei?
Aê, nessa equação, chata, polícia mata – Plow! Médico salva? Não! Por quê? Cor de ladrão Desacato, invenção, maldosa intenção Cabulosa inversão, jornal distorção Meu sangue na mão dos radical cristão Transcendental questão, não choca opinião Silêncio e cara no chão, conhece? Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece Vence o Datena com luto e audiência Cura, baixa escolaridade com auto de resistência Pois na era Cyber, cêis vai ler Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver Que eu faço igual burkina faso Nóiz quer ser dono do circo Cansamos da vida de palhaço É tipo Moisés e os Hebreus, pés no breu Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu (Cê é loco meu!) No veneno igual água e sódio (vai, vai, vai) Vai vendo sem custódio Aguarde cenas no próximo episódio Cês diz que nosso pau é grande Espera até ver nosso ódio
Por mais que você corra, irmão Pra sua guerra vão nem se lixar Esse é o xis da questão Já viu eles chorar pela cor do orixá? E os camburão o que são? Negreiros a retraficar Favela ainda é senzala, Jão Bomba relógio prestes a estourar
A literatura pode nos ajudar muito a compreender nossa própria existência e mesmo alguns conceitos sociológicos.
Émile Durkheim é um dos quatro cavaleiros da Sociologia clássica e elaborou o conceito de FATO SOCIAL. As formas coletivas de sentir, de pensar e agir são FATOS SOCIAIS.
Entre eles podemos identificar desde o uso de determinadas roupas, passando pelas formas de acreditar na existência de forças sobrenaturais que regeriam nossas vidas até o idioma que falamos e através dele nos expressamos.
O conto O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO, de João do Rio, pode ser lido como uma magistral demonstração das formas coletivas que regem nossa vida e nos impelem a agir mesmo quando não estamos interessados ou querendo.
Podemos ampliar a reflexão para libertação do controle das formas de pensar. Pensar deve ser angustiante, mobilizador, deve criar o estranhamento que possibilita o PENSAR FORA DA CAIXA e, a partir daí, agir e sentir também.